Autor e foto: Angela Maria Curioletti/Portal Minutta
Foi de bicicleta, entregando protestos e intimações pela cidade, que tudo começou. Taisi Claudete Schell Leal dedicou 51 dos seus 66 anos ao trabalho dentro de um cartório, em São Lourenço do Oeste (SC). Nesta segunda-feira (31), a profissional se despede oficialmente do trabalho.
Taisi precisou deixar os estudos para trabalhar e, aos 18 anos, prestou uma prova para se tornar escrevente. Depois, na década de 80, encarou o que hoje seria equivalente a um concurso público para se tornar oficial maior. A partir daí, o cartório passou a ser, segundo ela mesma, quase uma segunda casa.
Do papel ao digital
Quando começou, tudo era feito à mão nos livros de registro, inclusive com caneta-tinteiro. A lei das matrículas e a primeira máquina elétrica do cartório chegaram muito tempo depois. Depois vieram os sistemas informatizados até a completa digitalização do registro de imóveis.
Ela lembra que o trabalho manual não deixava margem para erro: qualquer engano na datilografia significava refazer tudo, já que não existia como corrigir. "Tinha muita coisa que você tinha que fazer com muito cuidado", conta, sobre a rotina exigente dos primeiros anos.
Seu último trabalho antes da aposentadoria oficial foi a digitalização de cerca de 24 mil matrículas do cartório, um compromisso que assumiu com o atual titular e que só terminou no fim de julho deste ano, quando finalmente decidiu parar.
O preço da dedicação
A dedicação ao trabalho marcou profundamente a vida pessoal. Mãe de três filhos - Éderson, Flávia e Bruna -, Taisi conta que viveu todos os 51 anos de trabalho sem ter um horário fixo, trabalhando até de madrugada, sem sábados, domingos ou feriados garantidos.
Ela reconhece, com honestidade, o custo dessas escolhas. "Eu sempre coloquei o cartório em primeiro lugar", admite, ao lembrar dos filhos nas mãos de tios ou outras pessoas enquanto ela estava no trabalho.
Amizades
Ao longo de mais de cinco décadas, Taisi também colecionou histórias marcantes, algumas doces, outras mais difíceis. Mas, o que fica, segundo ela, são principalmente os vínculos construídos com quem passou por ali: famílias que ela viu se formar, se casar, ter filhos e netos, sempre voltando ao mesmo balcão. É esse convívio, mais do que qualquer papel assinado, que ela diz que vai sentir mais falta.
O que vem agora?
Com a aposentadoria, Taisi planeja simplesmente aproveitar o tempo com os seis netos e passar mais dias na fazenda da família. Depois de décadas dedicadas quase exclusivamente ao trabalho, ela diz sentir que finalmente chegou a hora de descansar: sem arrependimentos e com a sensação de dever cumprido.
Em suas próprias palavras, ao encerrar essa etapa: "eu sempre pensei no melhor".



